Sabrinalaranjo

Amb un Café i una Llei

Quando um país inteiro descobriu que podia protagonizar um filme sem ter ido ao casting

Geopolítica para principiantes: destruir primeiro, perguntar depois

Quando um país inteiro descobriu que podia protagonizar um filme sem ter ido ao casting
Sabrina Laranjo

Há países que chegam às manchetes mundiais por descobrirem vacinas, ganharem mundiais ou enviarem foguetões para o espaço. E depois há Andorra, que num belo dia de 2015 acordou a descobrir que era, aparentemente, uma peça fundamental de uma trama financeira internacional digna de um filme onde chove sempre e toda a gente fala muito seriamente perante ecrãs com gráficos vermelhos.

Há dias normais. Dias tranquilos. Dias em que a única preocupação nacional é se vai nevar no fim de semana ou se o preço do café vai subir outra vez.

E depois há aquele tipo de dias em que uma agência dos Estados Unidos publica um «notice» e, de repente, um país de 80.000 habitantes parece o cérebro financeiro do mal internacional.

 E assim começou, provavelmente, uma das semanas mais stritantes da história moderna andorrana.

A verdade é que o país não estava preparado para aquele nível de drama. Aqui a gente estava tranquilamente na fila do supermercado, a ver se nevava e a discutir sobre estacionamentos. Mas, de repente, parecia que cada cidadão escondia segredos bancários internacionais debaixo do sofá da sala.

O caso BPA foi provavelmente uma das experiências coletivas mais surreais que Andorra já viveu. Em questão de horas, passámos de vender tabaco e perfumes a parecer uma mistura entre Wall Street, Narcos e uma reunião secreta de vilões do James Bond.

Uma experiência muito enriquecedora emocionalmente.

Tudo muito proporcional. Muito discreto. Muito relaxado.

A melhor parte é que muita gente ainda não sabe exatamente o que aconteceu. Mas isso nunca foi um problema moderno. Hoje em dia, as conclusões chegam muito antes das explicações.

O mais espetacular foi a rapidez. Em menos tempo do que uma pessoa demora a entender a declaração de IRS, Andorra passou de país discreto dos Pirenéus a aparecer em manchetes internacionais com palavras como «branqueamento», «investigação» e «FinCEN».

E claro, quando os americanos utilizam siglas, tudo soa automaticamente muito mais perigoso. Se tivessem dito «departamento administrativo que revê papéis», metade do drama teria desaparecido.

Agora, anos depois, verifica-se que talvez houvesse coisas que não estavam assim tão claras. Que se informação duvidosa, que se possíveis exageros, que se interesses políticos… enfim, o kit completo da geopolítica moderna.

Mas também não nos escandalizemos. Descobrir que os grandes países têm interesses é como descobrir que os restaurantes cobram a água. Surpreende durante cinco segundos e depois continua-se com a vida.

O melhor de tudo é imaginar a reunião inicial:

—Como gerimos isto?
—Com calma e proporcionalidade.
—Perfeito. Façamos exactamente o contrário.

Agora verifica-se que os Estados Unidos admitem investigar se o FinCEN poderá ter sido «mal informado» ou diretamente enganado. Uma notícia espetacular porque confirma aquela sensação tão típica do cidadão moderno: «um momento… e se tudo isto fosse bastante mais complicado do que nos contaram?»

Mas fiquem tranquilos. Com certeza que houve apenas um pequeno erro de comunicação internacional. Como enviar um WhatsApp para o grupo errado. Mas com bancos, governos e a reputação de um país pelo meio.

O mais admirável de toda esta história é a rapidez com que se destrói uma imagem pública. Demora anos a construir confiança internacional, mas aparentemente basta um documento com um título dramático para que todos entrem em pânico coletivo.

É quase poético.

E enquanto os grandes nomes discutiam sobre geopolítica, estratégia e segurança financeira, as pessoas normais dedicavam-se a uma atividade revolucionária: tentar perceber alguma coisa.

Trabalhadores a perguntarem-se se manteriam o emprego. Famílias assustadas. Empresas preocupadas. Metade de Andorra a descobrir termos financeiros americanos como quem estuda medicina de urgência no Google às três da manhã.

E o mais interessante é que, anos depois, surgem novas perguntas. Processos arquivados. Investigações encerradas. Decisões revistas. Documentos retirados. Mais um bocado e o grande thriller financeiro acabará por parecer um episódio especialmente longo de «Aqui não há quem viva».

 Mas o mais moderno de tudo é esta maravilhosa capacidade institucional de nunca assumir nada claramente. Ninguém se engana. Ninguém mente. Ninguém pressiona. Tudo simplesmente «acontece». Como a chuva. Ou as atualizações irritantes do telemóvel.

Também tem o seu lado cativante ver como as grandes potências jogam xadrez diplomático enquanto os países pequenos fazem cara de «peço desculpa, nós só vínhamos para trabalhar descansados».

E é aqui que surge o inevitável humor negro: imaginar toda a situação vista de fora.

—O que aconteceu exatamente?
—Não sabemos totalmente.
—E por que se fez?
—Também não está claro.
—E as consequências?
—Ah sim, enormes.

 Fantástico resumo da geopolítica contemporânea.

 Porque talvez esta seja a grande lição do caso BPA: no século XXI podes ver uma reputação internacional destruída antes mesmo de a maioria das pessoas entender o que está a passar-se. A velocidade é impressionante. A clareza, logo se vê.

 E entretanto aqui estamos nós, a tentar distinguir entre justiça, política, interesses, estratégias e espetáculo mediático… que cada vez se parecem mais uns com os outros.

 Mas pelo menos há um lado positivo: se algum dia a Netflix fizer a série, Andorra terá provavelmente mais minutos de antena do que em toda a sua história.

 E visto o panorama, seria quase a consequência mais inocente de toda esta história.

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“Si això fos una conversa, ara tocaria un cafè.”

Sabrina Laranjo

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Comentários

Um subscritor

👍🏻💪💪💪

19d
Um subscritor

Necesitaríamos más que un café para debatir sobre lo que es, y lo que sería Andorra en cuestiones políticas e infraestructurales

19d
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